PROFANA VI

“Alguém o contratou por ouro, ou política...”. “Alguém quer elevar-se de cargo”. “Talvez incriminar alguém...”. “Silenciar um suspeito...”. “Quem? Quem?”. “Lorde Boldolier reclamava de seus cúmplices...”. “Quem mais poderia estar participando?”. Vlump. Um vulto passou correndo pela porta de entrada da sala onde Puma se encontrava. Por um segundo, simplesmente paralisou, instintivamente levou a mão ao cabo da espada e se adiantou em posição de ataque. Apertou os olhos na escuridão e esperou mais um pouco, ouvindo as batidas de seu coração atrapalhando a concentração dos ruídos externos; tinha tomado um susto dos infernos, até vontade de aliviar as tripas a acometeu. “Calma, pode ser o assassino. Fique em alerta”. Rezando para não ter acontecido nada com a princesa, Puma chegou a beirada da porta, verificando a passagem pelo corredor com olhos ávidos. Adiante, alguém descia os lances de escadas velozmente, de passos quase surdos. “Agora eu te peguei!”. Correndo na direção daquela sombra, Puma desceu as escadas de dois em dois, concentrando-se para não cair. Ele estava a apressar-se pelo pátio de entrada, com uma capa negra enorme esvoaçando por suas costas, sem se preocupar em olhar para trás. — Pare! — ordenou quando chegou no mesmo piso que ele e o viu saltar uma das janelas laterais do salão de entrada. — Eu vou pegá-lo!

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PROFANA V

Puma sentiu os dedos febris da mulher enlaçarem seu punho quando se pôs de pé. Firmaram-se ali feito algemas de ferro, grudando sua pele na dela, causando uma sensação boa de arrepio. Então, firmes, duvidosamente precisos, perigosamente ágeis, aqueles dedos a puxaram para baixo, levando seu corpo inteiro a se curva, primeiro, depois a se deitar parcialmente. Num instante via Verna quase desfalecendo em suor e dor, pálida sobre a cama, no outro, o rosto dela tinha colorações rosadas como jamais encontrou naquelas curvas.

PROFANA IV

Cravada era a adaga de cabo de ouro, incrustada com rubis, que ganhara de um amigo há alguns anos. Havia sido um presente por sua coragem, algo para recordar de que tipo de material compunha seu ser. De aço sonbryon, capaz de cortar até o mais resistente dos escudos, abrindo pele, osso, bronze, ouro, aço; a arma perfeita para perfurar as melhores armaduras, para acabar com o metal dos anões e destruir o revestimento de guerra dos elfos. “Elfos...”. Cravada era a sua última lembrança de quem a fez a guerreira que é. — BOLDOLIER! LORDE BOLDOLIER! A porta estalou uma última vez, gritando nas dobradiças entre os encontrões fortes da estaca de arrombamento. Laverne fechou os olhos, contraiu o abdômen firme, segurou o cabo da adaga com força, e abriu um corte reto em sua barriga. O ardor há muito não sentido a toma o corpo, obrigando-a a ofegar em gemidos baixos de dor. Engoliu o pior daqueles protestos, deixando escapar apenas um grito forçado, completando sua encenação.

PROFANA III

A poeira se erguia pelas traseiras do cavalo enquanto Puma presenciava o sumiço da mulher entre as ruas de Torre Clara. Cada passo que Verna dava para longe crescia em si uma angústia inexplicável, era como se algo muito ruim estivesse para acontecer. “Se ela for... Se...”, pegou-se pensando feito uma mãe, melhor, feito uma esposa, preocupada com o bem estar de seu conjugue na hora que ele sai pela manhã para cumprir seus deveres. “Estou mais para marido, então”. Corrigiu-se ao ter em mente o receio pelo corpo dela, pela fragilidade de seus contornos, mesmo voluptuosos. Abaixou a cabeça um instante e foi como se mil adagas a tivessem perfurado o crânio de uma só vez. Franziu o cenho e soube que não poderia encontrar com general Guliver antes de encontrar um Malá.

PROFANA II

A mente de uma mulher forte como Puma, por muitas vezes, revelam a fragilidade verdadeira de seus íntimos. Não foi difícil ler o passado dela ao tocar suas pálpebras, muito menos seus desejos e anseios. Puma, resumidamente, era uma mulher simplória de sentimentos complexos, alguém cuja objetividade é o ponto que a norteia nos emaranhados de ramos das suposições. Alguém privada de viver os sonhos quando nova, repreendida por ser quem é e julgada por perseguir o que acredita. “Não somos muito diferentes umas das outras, não é mesmo?”. E se não fosse o fato de ser Puma alguém a cumprir, cegamente, as ordens de seu superior, talvez desse a ela uma chance verdadeira para conhecer um pouco de si. “Só a matar se der errado, nada demais”.

PROFANA I

“São exatas duas horas para o amanhecer, eu não consigo dormir, mal consigo me aquecer ao redor da lareira, amontoada em cobertas, nesse verão – VERÃO – de Ioverlar. Vivo em Lauren, uma cidade considerada quente para os padrões do norte e nem era para eu estremecer dessa maneira. Estou começando a duvidar da minha sanidade.” – diário de Puma, vigésimo dia sem Ela. “Eu vi os olhos amarelos naquele dia, consigo me lembrar, eram olhos amarelos e reptilianos como os de um demônio. Foram eles quem me cegaram, foram eles.”– diário de Puma, trigésimo segundo dia sem Ela. “Preciso me encontrar com um mago, alguém do clã dos Malari, que possa me dizer o que tenho. Não consigo me aquecer de jeito nenhum, mesmo toda empacotada. Não quero morrer, deuses, por favor.” – diário de Puma, trigésimo nono dia sem Ela. “As flores são tão bonitas no outono... Eu lembro delas quando sinto o cheiro de seu pescoço branquinho. Como um ser consegue me deixar nessa sensação de flutuar todas as horas do dia? Nem consigo raciocinar direito. Só sei que a amo... A amo intensamente.” – diário de Puma, dois dias depois da partida Dela do quarto. Quando se chega em um bordel com uma missão de Estado para cumprir, um assassino para prender, a vida de muitos para salvar, a última coisa que se espera perder é a sanidade. A paixão levou Puma ao cargo de general, o Fogo, sua razão.

SANTINORMUR VII

Por que nunca ouviu falar desse rio, por quê? Não recordava ter lido a respeito, ouvido algum boato, ou similar. Nada a fundo. Lindo demais, simplesmente incrível, a despertava a sensação de completo, como quem, finalmente, despertou de um pesadelo. Precisava o sentir, o tocar. — Nunca desista, Kah... A voz de sua mãe ecoou perto de seus ouvidos e ela estremeceu. Era o fim, tinha chegado finalmente e não hesitou quando a água morna a tocou a superfície dos pés, a beijando intimamente, levando-a a sensação de completar, de... Inteira, como estivera pensando. Seus músculos respondiam ao toque daquele rio, reagindo ao seu afago quente feito os dedos de um amante. Por que aquela era a única chance.

SANTINORMUR VI

Esgueirou-se por entre a mata, ouvindo os passos longes, mas tão pertos ao mesmo tempo. Com aquela sensação maluca de alguém a caçando, os sentidos altamente apurados, como se o mundo inteiro tivesse a abraçando por completo, inundando seus ouvidos, narizes, olhos e boca. “O que eu sou? O que eu sou de fato?”

SANTINORMUR V

Liberdade? Qual é a sua forma? Como eu chego até você? Preciso de quanto para ser sua aliada? É difícil te viver? - O sopro da vida tocou a face alva de Karen, mas não foi pelas narinas que a jovem respirou, foi... "Sangue".

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